No bar a gente se vê

Photo by Diane Picchiottino on Unsplash

 

Seu Olivaldo vive boêmio, começa devagar e gosta de curtir a embriaguez chegando. Coloca um disco na vitrola, Doors ou Johnny Cash, senta mais ou menos no meio do balcão e se nutre do lúpulo amargo.

Vai e volta do bar sempre caminhando. Seus vizinhos já sabem o horário que passa, para onde vai e de onde vem. Sempre muito silencioso.

Seu Olivaldo vive lendo, começou com poesia, gostou de Manoel de Barros e desejou “crescer pra passarinho”. Geralmente senta na varanda para ler literatura e poesia, na sala para ver fotografia e no escritório lê filosofia.

Vai e volta, de literato a filósofo. Seu irmão já sabe que de presente nada menos que isso. Sempre muito previsível.

Seu Olivaldo vive respirando fundo, começou quando nasceu e hoje o faz para ser correnteza. Coloca outro disco, Quinteto Armorial ou Pink Floyd, senta-se ao lúpulo, sempre no meio do balcão, esperando ele chegar.

Vai e volta em pensamento, já foi cometa, nave espacial, cigarra e golfinho. Seus vizinhos já sabem, a hora que ele passa todos respiram fundo.

Olivaldo se imagina livre, mais que isso, vive imaginando. Geralmente transita de Floyd à Janis Joplin, de Manoel à Merleau-Ponty, de passarinho ao seu amigo, Taylor Hawkings.

Vai e volta de apé para o bar, esperando ele chegar. Vive boêmio, imaginando ser passarinho. Respira golfinho e repousa cometa. Se alimenta de letras, palavras e principalmente silêncio.

Seu Olivaldo vive esperando, por isso só é livre imaginando. Foi de vento em poupa, pensando que em breve ele iria chegar.

Um dia, no meio do balcão, imaginando Taylor tocando, olha para a televisão pendurada.

Virou o copo sem querer.

Deixou escorrer.

Não pediu outro.

Saiu sem discernir o adiantado da hora do atraso em se adiantar. Sentou do lado de fora. Esperou.

Lá dentro, a vitrola parou de tocar.

 

Fonte.

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